Se alguém que está a ler este post estiver a pensar en vir viver para Barcelona, pense bem. Nem tudo são rosas. Ou melhor, Barcelona é uma rosa com muitos espinhos...
Um dos espinhos mais difíceis de ultrapassar é alugar casa. Antes de virem assegurem-se que alguém os pode receber na vossa casa durante uma temporada, ou venham no Verão e preparem-se para dormir na praia umas noites.
Partilhar casa não é fácil. São sete cães a um osso, o que faz com que os preços aumentem.. E ainda: muitos quartos são interiores, tem que se ultrapassar uma entrevista, e muitas vezes quando se liga já está o quarto ocupado. Ex: na minha casa existe um quarto interior, minúsculo e os donos põem um anúncio de manhã e à tarde já está alugado.
Alugar casa é ainda pior. Das duas uma: ou se tem um contrato definitivo e apenas temos que pagar três a dois meses de fiança, ou temos como uns 10.000€ no banco.
Pois é, sai caro viver em Barcelona. E é preciso tempo para se encontrar o que se quer. Entretanto, há sempre muitas coisas para fazer e muita cerveja para beber.
Tenho saudades de Ti - a minha cidade. De ver as tuas cores quentes ao final da tarde. De caminhar nas tuas ruas estreitas e oblíquas. De Alfama - do cheiro a sardinha e a bifanas no Verão. Das grinaldas a dar cores às ruas. Das calçadas, de olhar essas calçadas. Tenho saudades do Largo do Carmo e de repousar o meu corpo no Rio Tejo quando estou no miradouro de Santa Catarina. De ver as crianças a brincar na rua e dos travestis no Príncipe Real. ¡Extráñote! - entranho-te nas bebidas das Primas. Se ao menos aqui pudesse olhar de cima para baixo...
Tenho saudades de pertencer-te. Faz-me falta pertencer a uma cidade - à minha, à Lisboa das sete colinas.
- Hoje vamos ao chiringuito na praia, queres vir?
Se ouvirem isto em Barcelona e pensarem que é o nome de um bar na praia, desenganem-se. É antes um tipo de bar em Barcelona - um bar na praia com música e que muitas vezes fica aberto até de noite. Uma boa alternativa à discoteca na muito calorosa Barcelona de Verão.
Este fim de semana, uma vez mais, o Domingo de praia terminou num chiringuito. Umas novatas em Barcelona queriam ir a um chiringuito em particular. Quando lhes perguntamos "E o nome, qual é?", na sua inocência de quem chegou há pouco tempo a Barcelona, olharam-nos e disseram: "Pensávamos que era o nome do bar".
A cultura do chiringuito é algo que anima as praias de Barcelona e as pessoas que vão à praia. Se as praias de Barcelona não são as mais limpas, são - ao menos - das mais animadas. A cultura do beber e ouvir música na praia, sentado ou deitado em cadeiras de desenho é um luxo que sai mais barato que uma saída à discoteca.

Por isso, quando alguém me disse que por causa da lei do civismo - aquela que proíbe as pessoas de andar de patins e de bicicleta e de beber na rua - queriam terminar com a música nos chiringuitos, senti uma pequena angústia. Mais uma vez, esta cidade que tem uma tendência para proibir o que dá prazer, queria retirar-me uma das minhas maiores fantasias desta cidade. O dançar na praia e ouvir o mar e sentir a brisa do mar, é um dos melhores refúgios desta cidade. Além de fugir do calor insuportável - chamado "xafogor" - as noites da praia envolvem-se geralmente de um misticismo que só por si é garante de alegria.
Enquanto a lei não for aplicada vou continuar a aproveitar a boémia dos chiringuitos. E depois, logo se encontrará um novo prazer...
Entretanto, como o chocolate até ao fim.
Na televisão espanhola existe um anúncio a uma companhia de telefones, feito em Valência, que consiste num jovem que vai pela rua com um cartaz a dizer "Regalo abrazos". Cada uma das pessoas que recebe um abraço aparenta um ar de felic
idade.
Embora este anúncio tenha impressionado várias pessoas - das muitas com que falo têm muitas vezes vontade de sair a dar abraços - é difícil imaginar alguém caminhando pela rua com um cartaz destes. Parece impossível mas não é. Em Barcelona, o movimentos Abrazos Gratis saiu pelas Ramblas a oferecer abraços.
Como surgiu o movimento:
"And last, but by far not least, Juan Mann from Sydney Australia. Juan hit the streets of Sydney upon his arrival from overseas. It had been a trying time for Juan, there was nobody at the airport to greet him and his hometown seemed so foreign. Juan took it upon himself to make a sign with the words "Free Hugs" and go down to the Pitt Street Mall in the centre of Sydney and offer hugs to passer's by. Inspired by Juan's endeavours a local band, The Sick Puppies decided to make a video to one of their songs, "All The Same". If you haven't listened to it yet, its a doozy and I recommend that you buy it. Anyway, the video was posted on Youtube.com. The video was watched by millions around the world and inspired thousands of people to make their own signs and go out free hugging."
Vejam o vídeo em http://www.youtube.com/watch?v=vr3x_RRJd
O filme da minha vida? Não, sem dúvida nenhuma. Talvez o filme que melhor descreve esta fase da minha vida - ser estrangeira na cidade onde vivo.
O início do filme é como o retrato vivo dos meus sentimentos ao partir e ao chegar. Sem dúvida que quando partimos estamos contentes com a expectativa de ir para uma cidade nova, de conhecer novas pessoas, da aventura que é estar longe de tudo e de todos que conhecemos. Mas assim que o avião descola é difícil não chorar quando vemos a Ponte Vasco da Gama cada vez mais longe. Nestes quase dois anos que estou aqui perdi a conta às vezes que fui a Portugal e voltei. Mas asseguro, que ainda não sou capaz de não chorar...
Lembro-me que quando cheguei a Barcelona o tamanho das ruas me impressionava. A perspectiva de sair do metro e não saber se estava virada para este, oeste, norte ou sul, e não ver o fim da rua, mudou a minha maneira de olhar para um mapa e de caminhas na rua.
Habituada a andar na pequena e curva Lisboa, as ruas perpendiculares e particulares de Barcelona não faziam senido na minha cabeça. Há que explicar que Barcelona tem um traçado quadricular e que algumas ruas atravessam a cidade de uma ponta a outra. Devido ao imenso comprimento das ruas de BCN, ninguém diz: moro na rua tal n número tal. Em BCN qualquer um diz: vivo na rua tal, com a rua tal, no número tal. Isto para evitar que alguém comece numa ponta da rua a procurar um número que está noutra ponta. Essa simples operação poderia demorar uma hora...
Na verdade toda a cidade me parecia fria. Apesar de ser uma cidade linda, não tina qualquer ligação com as ruas da cidade. Quando caminhamos constantemente à procura de referências e temos que andar para a frente e para trás para conseguir chegar a qualquer sítio, e com a ajuda de um mapa, toda a cidade nos parece um emaranhado de linhas que se desenham na nossa cabeça. Não estamos dentro da cidade, roçamos os limites dela e caminhamos por cima, não por dentro das ruas.
Até ao dia em que finalmente podemos caminhar sem o mapa e sorrir descobrindo os pequenos pormenores que nos recordam noites e pessoas.
Acabo de ver L'Auberge Espagnole, o filme de que todos me falam há anos e que só agora - 1 ano e 8 meses depois de ter chegado a Barcelona - tenho tempo para ver. É bom não o ter visto antes - tudo faz mais sentido agora...
Vejo uma Barcelona que não cheguei a conhecer - antes de existir a Rambla do Raval ou de a Faculdade de Filosofia passar para ao lado do MACBA. Confronto-me de novo com o sentimento de que esta cidade não me pertence, ainda que a tenha feito minha nos últimos meses.
Imagino como poderiam ser as minhas noites aqui antes da Lei da Ordenança Cívica - imposta o ano passado - ter mudado a paisagem nocturna. Sair da Paloma a rir alto e deitarmo-nos no chão a rir - IMPOSSÍVEL!! Em Barcelona os mimos que pedem silêncio aos clientes que abandonam as discotecas substituíram os risos da noite, sob a ameaça de fecharem ou de pagarem uma multa por denúncia dos vizinhos.
Vou mais longe... Recordo o meu regresso a Barcelona depois de um mês de férias em Lisboa. Lembro-me de começar a ouvir uns ruídos estranhos todos os dias às 21h - como alguém a bater em metais. Pensei: estes músicos da rua vão meter-se em sarilhos se continuam assim. E de depois ter descoberto tudo: aquele ruído insuportável era provocado pelos vizinhos da Ronda Sant Antoni que batiam com talheres em panelas manifestando-se contra as prostitutas que naqueles tempos enchiam a Ronda. E de depois haver uma manifestação. E de um dia ler num jornal que a polícia tinha prendido muitas prostitutas no Raval. E de uma noite sair de casa e achar que a minha rua estava muito vazia - o que ainda sinto cada noite - tinham tirado as prostitutas daquela rua. Onde as terão enfiado?
E de um mês depois começar a ouvir o mesmo ruído na minha rua, mas um pouco mais acima - agora manifestavam-se pelo encerramento da Paloma. E de depois ter lido no jornal que fechavam a Paloma, a mesma discoteca onde Picasso ía e conheceu uma das suas namoradas. E de haver movimentos contra - geralmente em páginas Web. E de a minha rua ter ficado ainda mais deserta, porque quando voltava a casa as ruas não se enchiam dos que saíam da Paloma. E de finalmente a Paloma ter aberto de novo com os seus mimos a pedir silêncio.
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